Segundo matéria do portal Opinião Brasília o Candidato do PL iniciou participação criticando a postura de Lula com Renata Vasconcellos na noite anterior e disse à jornalista que ela tinha liberdade para fazer “qualquer tipo de pergunta”
Nesse contexto, a abertura escolhida por Flávio teve evidente significado político. Ao mesmo tempo em que demonstrou solidariedade à apresentadora, aproveitou para estabelecer um contraste de comportamento com seu principal adversário.
A entrevista de Flávio Bolsonaro (PL) à TV Globo, na noite desta sexta-feira (28), começou antes mesmo que o candidato entrasse propriamente nos grandes temas políticos da sabatina. Diante dos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, Flávio decidiu utilizar sua primeira resposta para manifestar solidariedade à apresentadora pelo episódio ocorrido durante a entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na noite anterior.
Flávio classificou a atitude do adversário como uma “descortesia” e, dirigindo-se diretamente a Renata, afirmou que, de sua parte, ela poderia ficar à vontade para fazer qualquer tipo de pergunta.
A declaração não passou despercebida porque fazia referência a um dos momentos mais comentados da entrevista de Lula. Questionado por Renata sobre o crescimento da dívida pública e sobre quais metas fiscais adotaria em um eventual novo mandato, o presidente contestou a maneira como a jornalista havia formulado a pergunta e chegou a sugerir como ela deveria tê-la feito.
A postura de Lula gerou críticas após a entrevista. O Poder360 contabilizou 11 interrupções de Lula à jornalista durante a sabatina. A jornalista Natuza Nery também criticou especificamente o momento em que o presidente tentou explicar a Renata como a pergunta deveria ser formulada.
Ao mesmo tempo em que demonstrou solidariedade à apresentadora, Flávio aproveitou para estabelecer um contraste de comportamento com seu principal adversário.
Flávio: “Fique à vontade para fazer qualquer tipo de pergunta”
O gesto também funcionou como uma espécie de cartão de apresentação para o restante da entrevista.
Ao assegurar liberdade aos entrevistadores, Flávio sabia que enfrentaria perguntas difíceis. E elas vieram.
A sabatina passou pela relação do candidato com o banqueiro Daniel Vorcaro e pelo financiamento do filme Dark Horse, pela situação jurídica de Jair Bolsonaro, pelos acontecimentos de 8 de Janeiro, anistia, urnas eletrônicas, reconhecimento do resultado eleitoral, economia e redução da estrutura do governo.
Isso não significa que a entrevista tenha transcorrido sem interrupções. Pouco depois de prestar solidariedade a Renata, o próprio Flávio interrompeu a jornalista durante um questionamento sobre os recursos relacionados a Dark Horse, dizendo que não havia recebido pessoalmente aquele dinheiro.
Ainda assim, politicamente, sua mensagem inicial estava dada: queria se apresentar disposto ao confronto de ideias e às perguntas dos jornalistas.
Dark Horse e Daniel Vorcaro dominaram o início da sabatina
Um dos assuntos mais explorados foi justamente o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Flávio afirmou que sua participação consistiu na autorização do uso de sua imagem e na busca por investidores. Sustentou que não houve utilização da Lei Rouanet nem de recursos públicos e classificou os valores envolvidos como investimento privado destinado à produção do filme.
Questionado sobre contratos e prestação de contas, afirmou que não havia firmado contrato pessoalmente com Vorcaro e que a prestação de contas da produção havia sido apresentada à Polícia Civil de São Paulo. O candidato também procurou separar sua relação com o banqueiro de outras atividades investigadas, sustentando que seu contato dizia respeito ao projeto cinematográfico.
O tema deverá continuar presente na campanha, principalmente porque mensagens e áudios envolvendo Flávio e Vorcaro já vieram a público e são objeto de questionamentos jornalísticos e investigativos.
Bolsonaro, 8 de Janeiro e promessa de anistia
Outro bloco importante tratou diretamente de Jair Bolsonaro e dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
Flávio rejeitou a interpretação de que seu pai tenha participado de uma tentativa de golpe e argumentou, entre outros pontos, que Bolsonaro se encontrava nos Estados Unidos naquele período.
O candidato também voltou a defender a concessão de anistia. Segundo declarou na entrevista, caso seja eleito, pretende encaminhar essa questão ainda durante a transição de governo. Também fez críticas ao ministro Alexandre de Moraes e sustentou que houve uma atuação destinada a retirar Jair Bolsonaro da vida política.
É um tema particularmente importante para sua campanha. Flávio precisa, ao mesmo tempo, preservar a ligação política com o legado do pai e convencer o eleitorado de que possui um projeto presidencial próprio.
Urnas eletrônicas e reconhecimento do resultado
Talvez uma das respostas politicamente mais relevantes tenha surgido quando os entrevistadores abordaram o sistema eleitoral.
Flávio afirmou que respeitará o processo e o resultado das eleições de 2026. Durante esse trecho, reconheceu também ter cometido um erro anteriormente ao afirmar que as urnas brasileiras seriam fabricadas por uma empresa venezuelana.
“Falei errado”, admitiu ao esclarecer a declaração.
O candidato acrescentou que está disputando a Presidência segundo as regras eleitorais vigentes e afirmou que respeitará essas regras.
A resposta possui peso porque uma das questões que acompanharam Jair Bolsonaro nos últimos anos foi justamente sua relação conflituosa com o sistema eletrônico de votação e com a Justiça Eleitoral.
Corte de ministérios e cargos comissionados
Na área administrativa, Flávio apresentou uma promessa destinada especialmente ao eleitor que cobra redução do tamanho da máquina pública.
O candidato afirmou que, caso seja eleito, pretende diminuir o número de ministérios e promover cortes em cargos comissionados como parte de uma estratégia de redução de despesas.
“Eu vou cortar ministérios”, declarou durante a sabatina, acrescentando que pretende realizar um “tesouraço” nos cargos de livre nomeação.
A proposta procura aproximar sua candidatura de uma agenda tradicionalmente defendida pelo eleitorado liberal e conservador: menor estrutura administrativa, controle das despesas e redução do peso político da máquina federal.
Flávio procura construir imagem própria
A entrevista também serviu para mostrar um dos desafios centrais da candidatura do senador.
Flávio é filho de Jair Bolsonaro e evidentemente carrega consigo grande parte do eleitorado, das bandeiras e das controvérsias associadas ao ex-presidente. Ao mesmo tempo, precisa convencer uma parcela dos brasileiros de que não pretende simplesmente reproduzir o governo do pai.
Um detalhe simbólico chamou atenção. Assim como Jair Bolsonaro já havia feito em campanhas anteriores, Flávio compareceu à entrevista com palavras escritas na palma da mão. Desta vez, estavam anotadas “Mudança”, “Futuro” e “7/set”.
As duas primeiras expressões ajudam a compreender a narrativa que sua campanha tenta construir: preservar a identidade política bolsonarista, mas apresentar Flávio como uma alternativa voltada para uma nova etapa.
Contraste com Lula marcou a noite
Independentemente da preferência eleitoral de quem assistiu à entrevista, a abertura escolhida por Flávio Bolsonaro provavelmente ficará entre os momentos políticos mais repercutidos da sabatina.
O candidato poderia ter começado imediatamente respondendo sobre Dark Horse. Preferiu, antes, prestar solidariedade a Renata Vasconcellos e criticar o comportamento de Lula na noite anterior.
Foi também uma forma de explorar eleitoralmente um episódio que havia provocado repercussão negativa para o presidente.
Lula, diante de uma pergunta legítima sobre dívida pública, resolveu questionar a maneira como Renata formulou o questionamento e sugerir como ela deveria tê-lo feito. Flávio, no dia seguinte, procurou transmitir exatamente a mensagem contrária: perguntem o que quiserem.
E essa diferença de postura acabou acrescentando um componente inesperado à sequência de entrevistas da Globo.
Em uma campanha presidencial marcada por confrontos ideológicos, investigações, economia, segurança e discussões sobre democracia, a forma como um candidato reage quando é contrariado também será avaliada pelo eleitor.
Flávio Bolsonaro saiu da sabatina tendo respondido a questões difíceis sobre o pai, o filme Dark Horse, Daniel Vorcaro, anistia, 8 de Janeiro e urnas eletrônicas. Algumas respostas certamente continuarão sendo contestadas pelos adversários e submetidas à checagem jornalística.
Mas sua primeira mensagem foi simples e politicamente calculada: solidariedade à jornalista que, na noite anterior, havia sido repreendida pelo presidente da República pela maneira como decidiu fazer uma pergunta.
Na disputa pela Presidência, conteúdo importa. Mas postura, equilíbrio e capacidade de enfrentar questionamentos também dizem muito sobre quem pretende ocupar o Palácio do Planalto.





