Presidente da Câmara tratou da compra de um terreno em João Pessoa, na Paraíba
Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicam que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), discutiu com o banqueiro um possível formato de sociedade para a compra de um terreno em João Pessoa, na Paraíba. O imóvel estava registrado em nome da cunhada do parlamentar.
Os diálogos entre os dois começaram em 9 de março de 2024 e revelam uma relação próxima entre Motta e Vorcaro, que se tratavam por expressões como “amigo” e “irmão”.
Na primeira mensagem, Motta procurou Vorcaro para tratar da compra de uma área pertencente a uma antiga fábrica de cimento em João Pessoa. Na véspera, sua cunhada, Bianca Medeiros, havia adquirido todas as cotas da ETC Participações, empresa que seria utilizada na operação.
Uma semana depois, em 15 de março, Bianca contratou um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões com o Banco Master, dando as cotas da ETC como garantia. O dinheiro foi utilizado na aquisição do terreno.
Na conversa com Vorcaro no dia 9 de março, Motta afirma que os documentos para transferir a empresa à cunhada já estavam assinados e que ela havia iniciado as tratativas com uma pessoa chamada Adriana. O deputado, porém, diz acreditar que Bianca ainda não sabia do “formato de sociedade” que teria sido combinado com o banqueiro.
– Boa noite amigo! Tudo bem? Desculpa incomodar no sábado, estou aqui reunido com o pessoal para finalizar a negociação de compra da área aqui de JP [João Pessoa]. Conforme falamos, já temos os documentos assinados passando a empresa para minha cunhada, ela iniciou a negociação com a Adriana, mas acredito que ela não tá sabendo do formato de sociedade que ficou combinado – escreveu.
Na sequência, Motta pediu orientação sobre como deveriam proceder, afirmando que o prazo para quitar o pagamento à Intercement, empresa proprietária do imóvel que seria adquirido, era curto.
Quatro dias depois, o parlamentar voltou a tratar do assunto com Vorcaro. Ao saber que o banqueiro estava reunido com um conhecido em comum, Motta afirmou que seu sogro também estava presente e que gostaria de levá-lo ao encontro. Disse ainda que haviam conseguido resolver as assinaturas necessárias para prosseguir com o pagamento.
Em 15 de março, o presidente da Câmara agradeceu a Vorcaro pela confiança e pela parceria e afirmou que o prazo do contrato havia sido cumprido. Também sugeriu uma nova conversa para definir os próximos passos do empreendimento. O banqueiro respondeu que estava feliz com a parceria e que aquele seria o início de uma “parceria de vida”. Motta disse que a admiração era recíproca.
A compra foi concluída em abril de 2024. O terreno tem mais de 400 hectares, área equivalente a quase três vezes a do Parque Ibirapuera, em São Paulo, e deverá abrigar um novo bairro da capital paraibana.
O imóvel foi adquirido por R$ 45 milhões, mas suas matrículas registram valor fiscal de R$ 101 milhões. Essa avaliação é definida pela prefeitura e serve de base para o cálculo de impostos. Em outros casos analisados pela Folha, o valor fiscal costuma ficar abaixo do preço de mercado.
OUTRO LADO
Em nota enviada por sua assessoria, Motta afirmou que, ao longo de seus quatro mandatos na Câmara, sempre manteve diálogo com diferentes setores empresariais e representantes da sociedade. O parlamentar negou que as conversas indiquem irregularidades ou favorecimento.
– Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte. Tenho uma vida limpa, assim como é limpa a minha atuação política nesses 15 anos de vida pública – declarou.
Sobre o empréstimo feito pela empresa de sua cunhada, Motta afirmou que a operação ocorreu entre uma empresa privada e um banco privado, em um momento em que ainda não eram conhecidos os fatos e as investigações envolvendo o Banco Master e seu proprietário.
– Reitero que confio nos órgãos responsáveis pelas investigações, a quem cabe responder pelas apurações – concluiu.
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