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O que se sabe até agora sobre bebê encontrado carbonizado no Recanto

Segundo matéria do Correio Braziliense, um Casal foi preso pela morte de recém-nascido. Mãe disse à polícia que sofreu um aborto espontâneo. Psicóloga ouvida pelo Correio fala sobre o que pode levar uma mãe a abandonar um filho nessas corcunstâncias

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga como infanticídio o caso do recém-nascido encontrado carbonizado em um terreno da Quadra 400 do Recanto das Emas, às 7h50 desta sexta-feira (25/9). Investigadores colhem depoimentos da mãe, do companheiro dela e de testemunhas. Também analisam imagens das câmeras de segurança e aguardam o laudo do Instituto de Medicina Legal (IML) para saber se o bebê estava vivo quando foi descartado dentro de uma sacola plástica.

O borracheiro Adriano Pereira Leite Neto, 45 anos, abria o estabelecimento quando soube por terceiros que havia um corpo de bebê no local, bem próximo ao comércio dele. “Quando cheguei, vi uma cliente minha chorando em frente à loja. Perguntei se queria meu serviço e ela relatou que tinha uma criança ali, que tinha sido queimada”, contou.

O comerciante caminhou até o terreno acompanhado da cliente. Segundo ele, ao ver a cena, a mulher passou mal. Adriano disse que também ficou muito abalado. “Estou sem conseguir trabalhar até agora. Não estou dando conta. Estou arrepiado até agora. Foi muito feia a cena”, descreveu.

 25/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Recanto das Emas, local onde corpo de recém-nascido é encontrado carbonizado.
Recém-nascido foi encontrado carbonizado no Recanto das Emas às 7h50 de sexta-feira (25/9)(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Segundo o borracheiro, a situação foi percebida entre 7h20 e 7h30. Ele disse não ter notado nenhuma movimentação estranha na região antes de saber do caso. A cliente dele acionou a polícia.

Identificação

A Polícia Militar chegou ao local primeiro. Ao Correio, o tenente Urtiga, da PMDF, relatou ter recebido informações de populares sobre uma mulher grávida, moradora de um prédio próximo ao terreno. O imóvel fica sobre o piso comercial. As equipes identificaram a residência e a própria suspeita atendeu à porta.

Informalmente, a mulher, de 35 anos, confessou aos policiais militares que jogou o bebê no local. Contou que na quinta-feira teve sangramentos intensos. Na madrugada desta sexta-feira (25/9), conforme o relato, sentiu fortes cólicas e, ao urinar, sofreu um aborto espontâneo. Nervosa, disse ter colocado o corpo em um saco plástico, saído de casa, caminhado por 50 metros e jogado o bebê junto a entulhos. Negou, no entanto, ter ateado fogo.

A mulher, de 35 anos, chegou escoltada por policiais civis na 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas)
A suspeita, de 35 anos, chegou escoltada por policiais civis na 27ª DP (Recanto das Emas)(foto: Darcianne Diogo/CB/D.A.Press)

À tarde, a PCDF colheu o depoimento do companheiro da mulher, liberado há quatro meses do sistema prisional. De acordo com a polícia, ele apresentava sinais de embriaguez durante o depoimento. Alegou trabalhar em uma construção e deu pelo menos duas versões sobre o caso. Primeiro, negou saber da gestação da companheira. Depois, narrou ter saído para trabalhar e retornado para casa às 6h, quando a mulher já teria descartado o bebê.

A narrativa contradiz as imagens das câmeras de segurança colhidas pela polícia. As filmagens mostram a mulher com o bebê no saco de plástico na porta de casa. Ela caminha até um ponto, mas recua. O companheiro, então, aponta em direção ao local do despejo. Ela segue e conclui a ação.

O casal foi preso em flagrante. Zander Pacheco, delegado-adjunto da 27ª DP (Recanto das Emas), informou que o fogo que atingiu a área foi ateado por um homem não identificado, por volta das 3h, uma hora depois de a criança ter sido colocada ali. Os policiais buscam descobrir se o suspeito tem alguma ligação com o casal. “Temos informações de que incêndios são frequentes naquele local na madrugada. Vamos investigar se essa terceira pessoa agiu de forma intencional ou vinculada ao caso”, adiantou Pacheco.

Além do laudo do IML, a polícia aguarda o resultado da perícia feita na casa da mulher. “Vamos verificar se houve ingestão de medicamentos abortivos”, acrescentou.

Palavra de especialista

Não se pode pré-julgar

Por Mayra Gaiato, psicóloga e neurocientista

“Quando nos deparamos com um caso tão extremo, é natural tentar compreender o que poderia levar uma mãe a abandonar o próprio filho nessas circunstâncias. Do ponto de vista psicológico, precisamos considerar a possibilidade de um transtorno mental grave, especialmente quando há perda de contato com a realidade.

Existem diferentes tipos de transtornos mentais que podem levar uma pessoa a um estado psicótico, no qual ela perde o contato com a realidade. Isso pode acontecer, por exemplo, em casos de transtorno bipolar não tratado, depressão grave com sintomas psicóticos ou outros quadros de psicose.

Estamos falando de uma situação que contraria profundamente o nosso impulso de proteger e cuidar de um bebê, um ser completamente indefeso. Para uma mãe chegar a esse ponto, é importante investigar se ela estava vivendo um estado de desorganização mental muito grave.

Existem também outras possibilidades, como situações em que há intenção deliberada de causar sofrimento. Mas são circunstâncias diferentes, que precisam ser investigadas. Pela gravidade do caso, uma das hipóteses que merecem ser consideradas é a ocorrência de um episódio psicótico, embora não seja possível afirmar isso sem uma avaliação.

Não podemos atribuir automaticamente um comportamento dessa natureza a um trauma ou a uma dificuldade emocional. Precisamos investigar se havia um transtorno mental grave, possivelmente não tratado, ou outros fatores envolvidos.

No caso específico, é fundamental que a investigação esclareça o que aconteceu e que uma avaliação psiquiátrica, quando indicada, ajude a compreender o estado mental dessa mulher.

Estamos falando de uma situação extremamente grave, que exige investigação cuidadosa. É preciso compreender as possíveis condições psicológicas envolvidas, sem presumir que toda violência contra uma criança seja consequência de um transtorno mental.”

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