Em uma entrevista exclusiva concedida à rede britânica BBC, em Kiev, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, apresentou uma postura de firme resistência contra as pressões internacionais por um cessar-fogo imediato. Para o líder ucraniano, o conflito atual não é apenas uma disputa regional, mas o estágio inicial de um confronto global orquestrado por Vladimir Putin.
O preço da paz e a “Terceira Guerra Mundial”
Zelensky foi enfático ao rejeitar as condições impostas pelo Kremlin para o fim das hostilidades, que incluem a entrega de áreas estratégicas como Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia. De acordo com o presidente, ceder 20% do território oriental não seria apenas uma perda de terra, mas um abandono de centenas de milhares de cidadãos.
“Acredito que Putin já a começou [a Terceira Guerra Mundial]. A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo”, afirmou Zelensky.
Ele alertou que qualquer pausa nos combates sem garantias sólidas serviria apenas para a Rússia se recompor militarmente. Segundo sua estimativa, Putin precisaria de apenas um ou dois anos para recuperar suas forças e retomar a ofensiva.
A tensão com a administração Trump
A entrevista ocorre em um momento de mudança na geopolítica mundial, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca. O presidente americano tem exercido pressão para que a Ucrânia aceite concessões territoriais em troca de um acordo rápido.
Zelensky, que no passado enfrentou o que diplomatas chamaram de “linchamento diplomático” por parte de Trump e seu vice, J.D. Vance, evitou ataques diretos ao republicano, mas ressaltou a importância das instituições. Sobre a confiabilidade de Trump, ele pontuou que as garantias de segurança precisam ser validadas pelo Congresso dos EUA para que sobrevivam às mudanças de governantes.
Vitória e legitimidade
Questionado sobre o que define uma “vitória”, Zelensky manteve o objetivo de retornar às fronteiras de 1991. Embora reconheça que a retomada total imediata custaria milhões de vidas e que o país carece de armas suficientes, ele classificou a preservação da independência como a vitória atual e a devolução das terras como uma questão de justiça global.
Sobre as cobranças por eleições gerais — cujo mandato original expirou em 2024, mas foi prorrogado devido à lei marcial — o presidente mostrou-se aberto, desde que existam condições legítimas e segurança para os eleitores. “Vocês precisam decidir uma coisa: querem se livrar de mim ou querem realizar eleições?”, questionou aos parceiros internacionais.
Demandas militares e o futuro
O líder ucraniano encerrou a conversa reforçando a necessidade urgente de defesa aérea, revelando frustração por ainda não ter obtido licenças para fabricar sistemas como o Patriot em solo ucraniano.
Mesmo diante do cenário de incerteza e da redução da ajuda militar direta dos EUA, Zelensky demonstrou resiliência. Ao ser questionado se o mundo deve se preparar para uma guerra ainda mais longa, ele preferiu uma metáfora estratégica: “Estamos jogando xadrez com muitos líderes, não apenas com a Rússia. Não há um único caminho certo, mas muitas direções paralelas. E uma delas trará o sucesso: deter Putin”.






