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Saúde na UTI: Você sabia que o DF perdeu 347 médicos clínicos

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Brasília (DF), 11/04/19. Saúde no DF - obstetras e pediatras são algauma das especialidades que faltam no DF. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Pesquisa revela debandada de clínicos entre 2014 e 2019. Número de profissionais pedindo desligamento supera ingressos e CRM cobra solução

RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES
Francisco Dutra

Caiu o número de médicos na rede pública do Distrito Federal. A debandada agrava a falta de profissionais e o caos nos hospitais, postos de saúde e unidades de pronto-atendimento (UPAs).

Segundo o Sindicato dos Médicos (SindMédico), em 2014, a população era atendida por 5.546 clínicos. Ao final de fevereiro de 2019, o quadro era de 5.199. Ou seja, o DF perdeu 347 doutores e doutoras. Desse total, na virada de 2018 para este ano, 184 deixaram o serviço público.

Percentualmente, a rede perdeu 6,25% dos médicos ao mesmo tempo que o DF cresceu. Pelas contas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população saltou de 2.852.372 para 2.974.703, entre 2014 e 2018. É um crescimento de 4,28%. Mais brasilienses, menos médicos. Pelo diagnóstico do Conselho Regional de Medicina (CRM-DF), faltam 2,5 mil profissionais para a saúde pública cuidar realmente bem dos pacientes da capital da República.

Na análise por especialidade, houve encolhimento expressivo na pediatria. Entre 2014 e 2018, o número de profissionais passou de 684 para 541. Na ginecologia e na obstetrícia, a rede tinha 667 médicos; hoje, são 512. Entre os clínicos gerais, a quantidade de especialistas caiu de 893 para 705. O efetivo da cirurgia geral minguou de 374 para 320.

Os números da pesquisa do SindMédico foram colhidos do Portal da Transparência e da Sala da Situação da Saúde. A queda no quadro de médicos penaliza a população, principalmente as famílias mais carentes. Na quinta-feira passada (11/4), a dona de casa Beatriz Aparecida, 27 anos, não conseguiu encontrar um pediatra para atender o filho, Clayton Rauã, de apenas 4, no Hospital Regional de Taguatinga (HRT). O menino sofria com febre alta, na casa dos 39ºC.

Sem resposta da rede pública, na sexta-feira (12), buscou socorro em clínica particular. “Não adianta procurar hospital público. Meu filho ainda está com febre. Eu vou esperar ele ter uma convulsão? Tem poucos pediatras nos hospitais, pouquíssimos. Falta de pediatra é o que mais acontece. Faz duas semanas que o Clayton está tendo febre e nada de conseguirmos atendimento”, desabafou.

Na manhã de quinta (11), o vigilante Ivanildo Santos (foto em destaque), 46, também não conseguiu achar pediatra no HRT para o tratamento do filho Nicolas Santos, 2. O menino sofria com uma alergia no olho. “Sem dúvida, falta médico na rede pública. Todo lugar que você vai está muito precário. Acho que está faltando um concurso público para a Saúde, porque o que tem está escasso. E esse problema é falta de gestão do GDF”, reclamou.

Moradora de Águas Lindas (GO), Débora da Silva, 31, buscou atendimento para a filha Nicoly Silva, 10. “Ela tem problema na tireoide, está com febre e não é atendida. Os médicos de Águas Lindas não têm recurso, e a gente fica aqui esperando a boa vontade do DF”, lamentou.

 

Debandada vai aumentar
O número de médicos desistentes contará em breve com o cirurgião plástico Edmilson Lucio da Silva, 67, pertencente aos quadros do Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Profissional com 34 anos de rede pública, usou a perícia com as mãos para garantir a dignidade e a autoestima ao reconstruir rostos e corpos de pacientes vítimas de acidentes, queimaduras, malformações congênitas e câncer. Podia ter se aposentado há dois anos, mas continuou por amor ao ofício.

Há cinco anos, a rede pública vem em decadência. Trabalhei muito, porque a rede foi a minha escola. Poderia trabalhar por mais oito anos, mas solicitei a aposentadoria porque estou muito triste, eu não trabalho. Não consigo resolver os problemas das pessoas

Edmilson Lucio da Silva, cirurgião do Hran

A falta de materiais adequados é um dos problemas apontados por Edmilson. “Hoje, os hospitais funcionam quando não poderiam. Os órgãos reguladores não vigiam e não fecham”, denunciou.

“O trabalho que faço é ímpar na Secretaria de Saúde. Agora, o DF vai ter que gastar mais para enviar esses pacientes para tratamento em outros estados. E só estou indo embora por causa da bagunça. Deixo de fazer cirurgia porque falta luva, falta fio”, acrescentou.

Para o cirurgião, a rede está perdida pela falta de gestão, estrutura, insumos e pela ausência da meritocracia. Os salários iniciais, disse, também estão abaixo da média dos praticados no mercado privado.

RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O cirurgião Edmilson ainda poderia trabalhar por mais oito anos, mas a “bagunça” na gestão o levou a pedir a aposentadoria

 

“Banho de loja”
Além disso, para Edmilson, o governo Ibaneis Rocha (MDB) descumpriu diversas promessas de campanha e não seguiu as sugestões do ex-secretário de Saúde Jofran Frejat (PR), a exemplo da revisão do Instituto Hospital de Base, ampliado para o Instituto de Gestão Estratégica da Saúde (Iges). “É apenas um banho de loja nos hospitais”, alfinetou o cirurgião. Outra sugestão de Frejat esquecida foi a convocação dos médicos aposentados para reforçar a rede.

Na visão do presidente do CRM-DF, Farid Buitrago Sánchez, a queda do número de médicos agrava o caos na saúde pública. Os profissionais remanescentes ficam sobrecarregados, enquanto a população cresce e não recebe o atendimento necessário.

Nesse sentido, a instituição pretende cobrar contratações e concursos públicos, principalmente para reforçar a atenção primária. Em médio e longo prazos, caso a queda de profissionais continue, com outros problemas na rede, o conselho poderá retomar intervenções éticas para fechar setores sucateados de hospitais.

Dentro dos próximos seis meses, do próximo ano, se nada for feito, avaliamos retomar as intervenções médicas em algumas unidades pediátricas. Os casos críticos hoje são Ceilândia, Brazlândia, Santa Maria e Gama. Nesses hospitais, a pediatria precisa de adequação de pessoal e na parte física

Farid Buitrago Sanchez, presidente do CRM-DF

Pelo diagnóstico da professora Helena Eri Shimizu, sanitarista do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), a queda do número de médicos é um problema grave na rede. Afinal, sem o clínico, as equipes de atendimento não são formadas. A especialista ressaltou que não há falta de profissionais no mercado do DF. O problema é a aversão crescente dos profissionais em trabalhar na saúde pública, principalmente em áreas carentes.

“Muitos desses médicos fazem a graduação e, quando passam em alguma residência, vão embora. O DF tem que trabalhar com a realidade. Por isso, precisa ter agilidade para fazer os concursos e as reposições rapidamente, investindo mais na atenção básica. Por outro lado, precisa de incentivos para fixar os profissionais na rede e nas regiões mais carentes. São necessários treinamento e valorização”, prescreveu.

Versão do GDF
Questionada pelo Metrópoles, a Secretaria de Saúde confirmou a queda do número de médicos até 2018, mas argumentou que houve uma retomada de contratações até abril de 2019. Em 2014, segundo a Subsecretaria de Gestão de Pessoas (Sugep), havia 5.161 profissionais ativos na rede.

Já em 2018, o quadro de ativos mostra 5.153 médicos. Por isso, na versão da pasta, houve um aumento de 243 profissionais até este ano.

Atualmente, a secretaria afirma ter no quadro 5.396 médicos em 59 especialidades. Nesse grupo, estão trabalhando 739 clínicos médicos, 328 cirurgiões gerais, 531 ginecologistas e obstetras, além de 560 pediatras.

“A pasta reconhece o déficit de profissionais, sobretudo nas especialidades de pediatria, emergencista e anestesiologista, além de clínica médica. A principal queixa daqueles que pedem desligamento é a distância entre a residência e o local de lotação”, justificou a secretaria.

Sem precisar quantitativos, o GDF prometeu nomear concursados de diversas especialidades. O governo também destacou a facilidade do Iges para repor a equipe médicano Hospital de Base, Santa Maria e seis UPAs. “A ampliação da carga horária de 20 para 40 horas semanais de 52 profissionais, sendo 80% médicos, também tem objetivo reforçar o atendimento”, completou.

O governo promete ainda 98 obras de construção, ampliação e reforma na rede, além da compra de equipamentos como mamógrafos e tomógrafos.

Sobre o caso do HRT na quinta-feira, a pasta encaminhou a seguinte nota: “A direção do Hospital Regional de Taguatinga informa que dois pediatras estão atendendo no pronto-socorro (PS) na tarde desta quinta-feira (11). Pela manhã, o atendimento esteve restrito aos casos urgentes por conta da grande quantidade de pacientes internados – além da capacidade do PS. No início da tarde, a emergência passou a atender, também, os casos com classificação laranja”.

Em entrevista ao Metrópoles na quarta (10), quando completou 100 dias de gestão, o governador Ibaneis Rocha (MDB) comemorou resultados na saúde, mas reconheceu que as pessoas só notarão as mudanças mais efetivas após pelo menos um ano de governo.

O emedebista contou que fará uma renovação na rede hospitalar, programando reforma, por exemplo, dos hospitais regionais do Gama e de Ceilândia, sem precisar de recursos extras. “Dinheiro na Secretaria de Saúde não falta: tem R$ 8,5 bilhões. A população já sente as melhorias e vai sentir muito mais com o tempo.”

Fonte : Metrópoles

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