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PF investiga encontro de Garibaldi e Sarney e tentativa de ‘soltura antecipada’ de Henrique Eduardo Alves

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Imagem mostra monitoramento do carro oficial do senador Garibaldi Alves Filho
Por Matheus Leitão-G1/Foto: Reprodução – 09/11/2017 – 08:35:04

Relatório traz fotos do acompanhamento, inclusive do veículo oficial do Senado – placa Senado 0047 (acima).

 

A Polícia Federal suspeita que o senador Garibaldi Alves e outros familiares do ex-ministro do Turismo Henrique Eduardo Alves, primo do parlamentar, buscaram ajuda do ex-presidente José Sarney para tentar uma “soltura antecipada” do ex-presidente da Câmara dos Deputados.

 

Segundo as investigações, a busca era, possivelmente, para tentar influenciar o julgamento de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

 

Henrique Eduardo Alves está preso há mais de quatro meses e foi um dos alvos da Operação Lava Jato, deflagrada há duas semanas, um desdobramento que nasceu do farto material apreendido nas buscas e apreensões da Manus, ação da PF nascida em junho.

 

Um relatório da Operação Manus ao qual o blog teve acesso registra gravações telefônicas, com autorização da Justiça, entre o senador Garibaldi e Laurita, esposa de Henrique Eduardo Alves, e também com Larissa, filha do casal.

 

O documento de 76 páginas, com data de 19 de outubro deste ano, mostra ainda que Garibaldi e Larissa foram monitorados pela PF em um carro oficial do Senado, a caminho de uma suposta casa da família Sarney.

 

Os grampos telefônicos e a vigilância presencial dos policiais estão registrados sob o título de “Encontro na Casa do Presidente”, e variam entre os dias 06 e 10 de outubro deste ano.

 

O primeiro diálogo importante trata de ligação entre Garibaldi e Laurita realizada no dia 8 deste mês, às 18h51:

 

Senador Garibaldi conversa com Laurita, esposa de Henrique Eduardo Alves

 

GARIBALDI: olhe, o Presidente marcou pra amanhã

LAURITA: certo

GARIBALDI: sete e meia da noite, na casa dele

LAURITA: ótimo, perfeito, tá ótimo, então vai à tarde e (…) pega no aeroporto, né

GARIBALDI: é verdade, é, tá certo

LAURITA: tá ótimo, tá perfeito, muito obrigada

GARIBALDI: viu

LAURITA: obrigada viu

GARIBALDI: tá

LAURITA: Deus abençoe você

GARIBALDI: um abraço Laureati [Laurita]

O que diz o documento da PF após transcrição do diálogo: “Importante ressaltar que a ligação ocorre em meio a um contexto de uma tentativa e busca contínua de Laurita e Andressa (filha) de meios para conseguir a soltura antecipada de Henrique Eduardo Alves”.

 

“Ademais, segundo as demais ligações da investigada Andressa, a sessão de julgamento de seu pai no Superior Tribunal de Justiça (STJ) estava prestes a ocorrer, motivo pelo qual existe a possibilidade de que tal encontro tenha sido arranjado no sentido da obtenção de benesses nesse julgamento”, continua relatório.

 

Depois disso, a PF registra conversa, interceptada no dia seguinte, da secretária de Garibaldi para o telefone de Andressa, na qual é marcado um encontro entre o senador e a filha de Henrique Alves na lanchonete Giraffas, no Gilberto Salomão, centro comercial do Lago Sul, bairro nobre de Brasília, pouco antes da suposta ida à casa de Sarney.

 

Segundo a PF, o suposto encontro na casa do ex-presidente estava marcado, primeiramente, para as 19h30 de 9 de outubro último, há quase um mês.

 

“Aproximadamente uma hora antes do encontro (09/10/2017 às 18h10min), o motorista [do senador] telefona para Andressa para combinarem o local exato onde passarão a integrar o mesmo carro em direção ao encontro”, explica o documento.

 

Cinco minutos depois o próprio senador conversa com Andressa, através do telefone desse motorista, diálogo que o blog também reproduz a seguir:

 

Senador Garibaldi conversa com Andressa, filha de Henrique Eduardo Alves

 

GARIBALDI: Andressa

ANDRESSA: oi

GARIBALDI: já soube da antecipação?

ANDRESSA: já, sete horas né?

GARIBALDI: é, sete horas lá

ANDRESSA: é, eu tô saindo aqui com minha mãe do aeroporto, vou só assinar um papel, é aqui pertinho do Gilberto, eu encontro vocês, é aqui do lado mesmo, é caminho

(…)

ANDRESSA: é rápido, é no caminho, só vou passar aqui no contador só pra assinar um papel

GARIBALDI: tá certo

ANDRESSA: tá, é caminho

GARIBALDI: você trouxe a lista direitinho é, tudo né?

ANDRESSA: não, mas eu tenho de cabeça, qualquer coisa eu anoto lá

GARIBALDI: hein?

ANDRESSA: eu sei de cabeça, eu anoto lá

Para a PF, é “importante destacar que Garibaldi preocupa-se que Andressa leve para a reunião uma lista, ao que Andressa responde que sabe de cabeça”.

 

“Tendo em vista a proximidade da data do julgamento no STJ anteriormente mencionada neste relatório, bem como o efetivo engajamento da investigada no caminho jurídico do processo penal de seu pai, tudo indica que referida lista seja relacionada a este julgamento”, diz o documento.

 

Segundo o documento, às 18h59 do dia 9, Andressa embarca no carro do Senado, que sai do Gilberto Salomão, em direção à Península dos Ministros, também no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Às 19h09, segundo a PF, o carro chega à uma casa que, de acordo com o relatório da PF, pertence à família Sarney.

 

“O veículo oficial do Senado no qual Andressa está dentro entra na residência na Península dos Ministros – Lago Sul pertencente à família do ex-presidente da República José Sarney”, afirma a PF.

 

O relatório transcreve em seguida uma outra ligação de Andressa, às 20h33 do dia 9, depois do fim da reunião, desta vez para o marido dela, chamado Bruno. “Ao final da reunião, Andressa telefona para seu marido para saber como seu pai reagiu às notícias”.

 

De acordo com a PF, a investigação indica que Andressa enviou a Bruno, por Whatsapp, o resultado obtido com o encontro na casa do “presidente”, “solicitando que o mesmo repassasse para Henrique Eduardo Alves”.

 

Segundo a Polícia Federal, Andressa avisa ao marido, no início da ligação, que “ligou no normal” no intuito “provável” de alertá-lo a tomar cuidado com o que vai falar, “uma vez que trata-se de uma ligação telefônica que não foi feita utilizando-se de aplicativos de conversas instantâneas”.

 

Andressa, filha de Henrique Eduardo Alves, conversa com o marido, Bruno

 

BRUNO: oi

ANDRESSA: oi, liguei no normal, tá?

BRUNO: ham ham

ANDRESSA: e aí?

BRUNO: tudo ótimo, muito bom, tudo ótimo, ficou melhor ainda, já tava bem, ficou melhor com essa aí

ANDRESSA: ai, que bom, mas não chorou, nada não, né?

BRUNO: não não, nem perto disso, longe disso

ANDRESSA: ai que bom que não vai ter interrogatório aqui no STJ né? falou tudo?

BRUNO: falei, falei tudo

ANDRESSA: ai, falou da reunião, tudo?

BRUNO: ham ham

ANDRESSA: ele ficou bem?

BRUNO: muito, muito

ANDRESSA: ai, que bom

BRUNO: eu cheguei lá, ele tava animado, ele tá bem, só tava ansioso pra saber né…

ANDRESSA: é, eu imaginei

BRUNO: ai quando eu passei pra ele, ficou melhor, eu saí, ele tava super otimista

ANDRESSA: ai que bom, então tá

Para a PF, a ligação demonstra que Henrique estava ansioso pelo resultado da reunião ocorrida entre Andressa, Garibaldi e o ex-presidente Sarney e que o mesmo ficou satisfeito com o que foi obtido.

 

No dia seguinte ao encontro na suposta casa de Sarney, o último 10 de outubro, às 19h53, Garibaldi liga para Andressa, novamente do telefone do motorista, para avisar, segundo a PF, que ainda não recebeu a notícia que eles precisava.

 

“Tendo em vista as ligações anteriores, bem como a diligência realizada pela equipe policial em Brasília que identificou que o encontro ocorreu na residência do ex-presidente da República José Sarney, tudo indica que seja do ex-presidente que Garibaldi espera uma resposta”. A seguir a íntegra da transcrição:

 

Senador Garibaldi conversa com Andressa, filha de Henrique Eduardo Alves

 

As interceptações demonstram que o julgamento do caso no STJ estaria marcado para o próximo dia 31 de outubro, o que não ocorreu. O blog entrou em contato com a assessoria do STJ. Existem dois habeas corpus impetrados pela defesa de Henrique Eduardo Alves, datados do fim de agosto deste ano.

 

Os habeas corpus ainda não foram a julgamento, mas tem parecer contrário dado pelo Ministério Público Federal. Segundo a assessoria, a regra é que os HCs sejam levados ao órgão colegiado, nesses casos a Sexta Turma.

 

Ao blog, o senador Garibaldi Alves confirmou a ida à casa do ex-presidente Sarney para pedir “ajuda” e tratar do caso de Henrique Eduardo Alves, seu primo, que foi presidente da Câmara dos Deputados.

 

“Sempre frequento a casa do Sarney aqui e acolá para pedir ajuda. E em uma dessas vezes, à noite, eu fui, em companhia da Andressa, para conversar sobre o problema do deputado Henrique, ouvir a opinião dele, como homem experiente, mas não houve nenhuma consequência”, afirmou ele sobre a suspeita de tentar “saída antecipada” de Henrique da prisão.

 

O advogado de Sarney, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou que o ex-presidente recebe Garibaldi com frequência, e que é amigo dele e da família de Henrique Eduardo Alves.

 

“O ex-presidente confirma o encontro com Garibaldi e Andressa, mas diz que eles foram lá mais para contar história, que não houve pedido de nada. E mesmo se houvesse um pedido de liberdade, ele não teria nenhum tipo de influência e não poderia fazer nada”, disse Kakay ao blog.

 

O advogado de Henrique, Marcelo Leal, afirmou que tem trabalhado tecnicamente, buscando as vias judiciais, e acredita que o mérito do habeas corpus é muito bom, e que, por isso, acredita na concessão das medidas.

 

Procurado pelo blog, o advogado de Andressa, Erick Pereira, afirma que não pode comentar as informações porque elas estão sob sigilo. Segundo ele, quando o sigilo da investigação for retirado pela Justiça, as explicações serão dadas à coluna.

 

O blog ligou para os números de Andressa, filha de Henrique, do marido dela, Bruno, e para Laurita, esposa de Henrique, mas não conseguiu o contato.

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